‘ANIMAIS NOTURNOS’ | FILME DA SEMANA

A minha recomendação dessa semana é ‘Animais Noturnos’ (Nocturnal Animals) que tem direção e roteiro de Tom Ford (bonitão, estilista, diretor, roteirista e produtor provando pra gente que dá sim pra querer ser muita coisa nessa vida). Um Drama/Thriller que apresenta três histórias num ritmo bastante tenso e de forma super competente, já que a gente nunca se perde nesses saltos. Acompanhamos Susan (Amy Adams) no presente quando recebe um rascunho o livro ‘Animais Noturnos’ escrito pelo seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal), a história contada neste livro e alguns flashbacks do seu passado com ele.

O filme trata de assuntos como a produção e frustração em processos de artistas, de solidão, do passado visto do ponto de vista do presente, de relacionamentos amorosos e familiares. Fala da projeção sobre as nossas memórias e os questionamentos das nossas escolhas. Parece muito assunto – e pensando agora eu acho que é ainda sobre muito mais – mas a montagem é dinâmica e, como as três narrativas são super interessantes, tudo flui de uma maneira muito envolvente.

A Direção de Fotografia ajuda a contar a história deixando os ambientes com luzes pontuais, quase sempre escuros, e os personagens enquadrados muitas vezes distantes e solitários. E por fim, mas não menos importante a Direção de Arte – Cenário e Figurino – que está incrível. O que chama a atenção é que em cada uma das três porções o conjunto acompanha o clima e o tema das três narrativas. Seja no passado mais nostálgico, no presente glamuroso e rico mas muito vazio e frio e a história do livro com um clima empoeirado, sujo.

Acredito que o que seja bastante dolorido (e onde a gente se reconhece nos personagens) é na angústia do presente sobre as decisões e caminhos do passado e como a gente se sente responsável não só pelo quanto nossas escolhas influenciam na nossa própria vida mas na vida das pessoas ao nosso redor.

Já assistiu? Gostou? Me conta que eu adoro conversar.

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‘OKJA’ | FILME DA SEMANA

Eu adoro ler e refletir sobre filmes que eu assisti e mexeram de alguma forma comigo, estamos aí estudando Cinema há tempo pra alguma coisa. Gosto de levar essas histórias por mais um tempo, dando mais significado para o que eu senti e entendendo o que e como ele conseguiu provocar em mim o que provocou. Por isso quero trazer pra cá alguns filmes que eu tenha assistido e que possam despertar alguma vontade em você – fantasma leitor que ainda acredita nesse blog -, sempre sem spoiler, porque, né, eu jamais faria isso!

fonte: netflix

‘Okja’ é o primeiro deles principalmente porque veio numa época particular pra mim já que eu voltei a ser vegetariana faz pouco tempo e o filme trata, entre outros assuntos, sobre a indústria da carne e da alimentação. Mas mesmo que você não seja vegetariana o filme também trata de amizade e de questões políticas e sociais do nosso tempo de maneira divertida. Eu, que não sou referência nesse ponto, chorei horrores e acho difícil não se emocionar pelo menos um pouquinho.

É dirigido pelo diretor e roteirista sul-coreano Bong Joon-Ho, diretor de outro filme que eu gosto muito – e também recomendo, é meio doido mas vale a pena – ‘Gwoemul’ (‘The Host’ ou ‘O Hospedeiro’). Misturando fantasia e ficção foi produzido e exibido exclusivamente pelo Netflix, o que levantou algumas críticas e discussões enquanto em competição em Cannes, já que nunca viu ou verá a sala de cinema – pelo meu queridíssimo Almodóvar.

O filme conta a história de Mija, uma menina sul coreana que mora com seu avô em uma montanha isolada, que tenta livrar sua melhor amiga Okja, uma super-porca muito fofa, de ser sequestrada por uma gigante empresa.

Principalmente porque as outras personagens a quem somos apresentadas são bastante caricatas, como Lucy (Tilda Swinton) e Jay (Paul Dano) é na espontaneidade e leveza de Mija que nos conectamos de verdade e torcemos para ela consiga resgatar sua amiga. O humor, muitas vezes até inocente e infantil, ajuda a fazer algumas críticas à questões contemporâneas sem qualquer sutileza já que explicita as mensagens que quer passar. Pra mim é aqui que mora o maior mérito do filme: tratar assunto sério com humor sem deixar de lado a gravidade dos temas.

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OS SORRISOS EM SIEM REAP

Siem Reap é muito visitada e conhecida por ser a cidade base de visita pro complexo de templo Angkor. Passamos, pra variar, mais tempo do que imaginamos por lá, mas não tinha como ser diferente numa cidade que nos encontrou com os mais abertos sorrisos.

O passeio nos templos é cansativo, vamos contar só sobre eles num outro post. Se você tem tempo é bacana pegar o ticket de pelo menos três dias pra ver com calma e visitar mais ruínas, elas são muitas e é difícil escolher as mais bonitas. Pode ser ainda mais exaustivo se você fizer como a gente e ao invés de ir de tuktuk for de bicicleta. Pedalamos, pelo menos, 40km por dia mas valeu a pena, aproveitamos pra intercalar com dias tranquilos na cidade.

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Várias feiras e ruas só pra pedestres – sempre considere bicicleta e motos pedestres no Sudeste Asiático – ficam abertas até tarde da noite, uma se unindo com a outra fazendo com que o centro de Siem Reap pareça uma grande feira noturna. Comemos comidas deliciosas nas barracas de rua mais movimentadas – a beringela assada com alho foi pedida duas vezes e será repetida nos churrascos na casa do meu pai – e pra quem quer comprar lembrancinhas é um ótimo lugar pra pechinchar e encontrar coisas bem diferentes. Se você caminha em ruas próximas encontra bonitas lojas com produtos artesanais mais únicos e muita arte local. Uma iniciativa que eu gostei bastante é a Angkor Recycled que produz bolsas a partir de embalagens usadas, especialmente de construção civil e produtos agrícolas. Quem fabrica são os locais que normalmente vivem em condições super pobres e ajudam a diminuir o lixo do país, que é também um enorme problema.  

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A cidade é cheia de bonitas iniciativas para ajudar o povo local e relembrar a triste história do Camboja. Tem museus dedicados às minas terrestres abandonadas depois da guerra civil e massacre do Khmer Rouge, tem concerto clássico onde as doações são direcionadas às crianças carentes, tem restaurante que ajuda os jovens a ter esperança profissional. É comum encontrar crianças vendendo livros na rua e pessoas que perderam algum membro ou que foram severamente feridas vendendo alguma coisa. Uma cidade pra te encher de esperança e te emocionar muitas vezes.

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Siem Reap nos emocionou, fomos recebidos por muitos sorrisos e pessoas que tinham alguma coisa pra contar, ou só queriam dar um oi. A gente sabe que vai se lembrar muito de lá por causa das pessoas, dos templos, das andanças na cidade, da minha desatrapalhada pisada num palito que me levou ao hospital e da incrível estreia do Star Wars XVII.

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O MARROM DE LUANG PRABANG

Luang Prabang é um das cidades turísticas mais movimentadas do Laos. Um lugar bonitinho, com resquícios da arquitetura e da comida francesa, já que o país foi colônia no século XIX e XX. Cruzam por ela dois rios importantes: o Mekong e o Nam Khan. A cor dos rios dá ainda mais personalidade pra cidade que tem, também, as ruas marrons, como se a poeira e o barro dominassem todos as superfícies.

Chegamos em clima de festa, já contamos aqui, e nossos dias foram diferentes por conta disso.

A cidade comemorava 20 anos do título de Patrimônio Cultural da Unesco. Na praça central aconteceram algumas apresentações típicas, teve caravana de elefantes e vimos até o presidente no encerramento.

Ao mesmo tempo acontecia o festival de cinema que a gente aproveitou bastante. Vimos filmes da Malásia, Camboja e do Laos. Fizemos alguns workshops e conhecemos pessoas com trabalhos bem diferentes, gente que trabalha muito pra fomentar a cultura local no Sudeste Asiático. Numa conversa com um dos organizadores do Festival percebemos a importância de um evento como esse. O povo do Laos não vai ao cinema. Em todo o país, em seu auge, existiram só 17 cinemas espalhados nas maiores cidades. Então ver um filme representando o próprio povo, com histórias atuais, na língua local, em tela grande e de graça é incrível, é super divertido. Foi bem importante pra gente poder presenciar isso.

Apesar de não termos idos em todos os templos e pontos turísticos mais famosos andamos muito pela cidade. E esse é sempre nosso programa preferido.

A rua principal, onde ficam muitos tuktuks e barracas de sanduíches, vira uma grande feira de rua todas as noites. Os vendedores espalham seus produtos no chão e é preciso tomar cuidado por onde anda. O que mais nos chamou atenção foram braceletes, talheres e abridores de lata feito com as bombas que foram jogadas no país. O Laos é o país mais bombardeado per capta do mundo!

Cruzamos o rio Mekong pra conhecer uma vila de uma tribo local. Onde vimos mulheres produzindo um papel artesanal lindíssimo, com folhas e flores. Um processo demorado e manual, cada uma delas numa atividade diferente. Riam e conversavam, trabalhando tranquilamente. Mais pra frente outra mulher fazendo um tear com infinitos fios. Também muito calmamente, enquanto ria conversando com a mãe que cuidava das crianças.

Tem lugar que o tempo passa de um jeito diferente.

 

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SOBRE ESTAR ABERTO A SURPRESAS

Antes dessa viagem, especialmente em viagens curtas, eu sempre fiz mapas e roteiros. Organizava o que queria ver e fazer pelas regiões de cada cidade, assim os passeios faziam mais sentidos e não deixava quase nada pra trás. Claro que sempre tinha espaço pro desconhecido, pros passeios sem rumo. Mas a minha lógica era que estando pouco tempo num lugar que tem muito pra me oferecer eu precisava ser certeira e eficiente. Tenho essa mania de organização e nas viagens não tinha porque ser diferente.

Assim que a começamos a viajar juntos temos um ritmo diferente. Sem pressa a gente descobre os melhores lugares da maneira que a gente mais gosta, que mais tem a ver com a gente. Desde o começo planejamos muito pouco, mas muito pouco mesmo. Não ficamos procurando as melhores épocas para estar em cada lugar, as vezes fazemos caminho que não fazem tanto sentido e é difícil quando temos certeza do nosso próximo destino.

Alguns vão dizer que planejamento é fator decisivo pra uma viagem como essas. Pra gente, não é. Então funciona assim também. Hoje a gente não vasculha tudo sobre o próximo destino, nem muitas fotos mais a gente vê da próxima cidade.

A verdade é que isso não é uma maravilha. Sabemos que as vezes pagamos passagens de avião mais caras do que deveríamos ou que não vamos conseguir ninguém no couchsurfing pra nos hospedar amanhã. Mas a gente tem se divertido com a sorte / acaso / coincidência.

Chegamos em Luang Prabang, cidade do Laos, faz dois dias. A vinda foi difícil, foram muitas horas num micro-ônibus a 30km/h, onde nem as minhas pernas cabiam de tão apertado. A estrada não tem asfalto e a quantidade de curvas se aproxima ao infinito. Quando chegamos, sem lugar pra ficar porque as vezes nem isso a gente planeja, encontramos pousadas cheias e hotéis caros. Demorou encontrar um lugar que a gente pudesse pagar e, como já era tarde, tomamos banho gelado porque ninguém mais conseguia nos ajudar.

Poderia ser uma tragédia se não fosse a comemoração de 20 anos que a cidade foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Então chegamos numa cidadezinha super bonita e que parece que parou no tempo cheia de coisas pra fazer. Desde que estamos aqui já vimos vários filmes produzidos no sudeste asiático, já fui numa conversa com um americano que tem um projeto fotográfico com cinemas de rua super parecido com minhas pesquisas, já fomos em workshop de produção cinematográfica e em algumas performances sem graça. Amanhã nos esperam 20 elefantes que acabaram de chegar de uma caravana pra preservação da espécie. E nada disso estava nos nossos planos.

Deixar de pesquisar sobre todos os detalhes do próximo destino, além de me deixar mais relaxada, me faz encontrar o desconhecido, me faz ver pela primeira vez os lugares que visito. Pode ser uma cidadezinha nova perto de onde você está, um restaurante que um local diz pra você ir ou a comida que ele sugere você comer, pode ser aquela fruta que você não faz ideia do que é, aquela portinha que você ficou curioso e entrou. Deixar espaço para as surpresas durante uma viagem pode sempre trazer experiências divertidas.

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